Encontro Global de Midialivre

Síntese temática:

A discussão de mídia como prática cultural e simbólica foi fortalecida ao longo dos diálogos e colocações propostas no Encontro. O eixo fundamental foi de reflexões e provocações referentes à centralidade da comunicação na sociedade contemporânea e seu papel na construção de uma nova realidade social, econômica, política e cultural no Brasil.

Sujeitos participantes:

Os debates contaram com a participação de pesquisadores, ativistas e interessados no tema.

Ambiente de debate:

A tônica do encontro foi a diversidade de estruturas, proposições e relatos. Existiram nas mesas, falas de importantes nomes internacionais sobre o tema, colocações não muito estruturadas por parte da sociedade civil e diálogo permanente com quem interfere e/ou milita no campo. O elevado número de convidados e a proposta provocativa do encontro gerou amplo debate e contemplou a pluralidade de olhares sobre a mídia. O diálogo foi fundamental para identificar alguns pontos consensuais capazes de orientar as futuras discussões a respeito do midialivrismo no Brasil, na América Latina e no mundo de forma geral.

Questões fundamentais e reflexões:

As intervenções convergiram no sentido de apontar a elevada concentração da propriedade dos meios de comunicação nas mãos de umas poucas famílias tradicionais e abastadas como uma realidade perversa. Um reduzido grupo de interesses ser responsável por aproximadamente 70% da informação que circula pelo país através dos meios mais populares como rádio e televisão produz imensas distorções. Retira de grande parte da população, incluindo minorias e grupos sociais hoje marginalizados, o direito à comunicação.

A atual legislação permite a propriedade cruzada, fazendo da imprensa um verdadeiro poder instituído, sem consulta popular, capaz de pautar a agenda política nacional a partir de interesses comerciais privados.

Após anos de dissimulação pluralista e tentativas reiteradas de afirmar um suposto apartidarismo, a grande mídia nacional vem deixando de lado os escrúpulos democráticos e revelando seu compromisso com a plutocracia, a manutenção das desigualdades sociais e com a conservação da ordem polarizada entre privilegiados e marginalizados.

Desde os levantes de Junho de 2013 a “guerra das comunicações” está escancarada. As ocupações realizadas pelos estudantes secundaristas das escolas de São Paulo foram citadas e usadas como exemplo em várias das falas proferidas. O comportamento dos veículos da imprensa paulista, sobretudo Folha de São Paulo e Estadão, não deixa margem para dúvidas ou relativizações.

Além das ocupações em São Paulo, também foram citadas como exemplo de uso estratégico das comunicações as ações promovidas pelas ativistas feministas na chamada “Primavera das Mulheres” com as hashtags #meuprimeiroassedio, #agoraequesaoelas e #meuamigosecreto, que tiveram largo alcance e causaram impacto no aumento das denúncias de violência contra a mulher num curto intervalo de tempo.

Estes exemplos foram saudados como laboratórios bem sucedidos de experiências onde aqueles que não têm voz no espaço público tomaram para si a responsabilidade de narrar suas próprias histórias e o poder de representar suas lutas sem intermediários e mediadores especializados ou supostos expertos que, frequentemente, sequestram a fala de grupos considerados minoritários esvaziando o potencial reivindicativo e afirmativo destes movimentos de empoderamento de grupos historicamente oprimidos e invisibilizados.
Mídia e representatividade é uma questão que se aproxima da luta do “Think Olga”, pois lutamos por uma representatividade mais humana das mulheres que foge de todos os estereótipos que nós estamos acostumados a ver na mídia dominante.

O “Think Olga” organizou recentemente uma lista de mulheres inspiradoras para reiterar que não falta mulher trabalhando em área nenhuma, nós só precisamos dar mais espaço para elas.

Os Meios de comunicação hegemônicos tem a capacidade de modelar opiniões e desejos, de conduzir e apresentar certos fatos como reais quando na realidade não são.

As redes sociais são um suporte que permitem contra-discursos. “Ni una a Menos” foi uma mobilização que começou com o hashtag que foi lançado após o assassinato de uma série de mulheres jovens na Argentina. Como transformar a mobilização que ocorre nas redes sócias em contatos concretos?

Como nós podemos usar as mídias sociais para perenizar, instrumentalizar e aprofundar ainda mais os movimentos sociais? O movimento “Meu Rio” busca engajar as pessoas em causas que tangem a cidade. Como nos podemos aprofundar nas ruas, fora da internet, a mobilização? Dificuldade de mobilização na rua de criar uma identidade coletiva que possibilite a articulação.

Como, a partir dos movimentos sociais, pode-se ocupar os meios de comunicação com as diferentes lutas, somar essas lutas com a união e, assim, gerar transformações culturais e construção de novos sentidos?

É possível ganhar território com as palavras.

Precisamos checar sempre os nossos privilégios antes de falar e relativizar as questões. Somos todos multidimensionais. As pessoas se dedicam a várias causas.

O Brasil é um dos maiores países que utilizam redes sociais (Orkut, Facebook, Tinder, Spotfy), sendo popularizadas cada vez mais pela entrada dos smarthfones no mercado. Podemos observar uma tendência dos movimentos sociais se apropriarem de campanhas nas redes sociais, levando a discussão de temas polêmicos e pouco discutidos na sociedade. As redes sociais são a opção de mídia mais barata e tem alcance maior ao público. Nesse contexto é necessário pensar em estratégias divulgação para cada rede social.

Houve mudanças de postura do MinC sobre as mídias sociais ao transmitir informação a partir das redes. Esse processo tem o objetivo de aproximar o cidadão, dar acesso ao conhecimento e explorar novas linguagens.

Necessidade de se relativizar a preocupação com a qualidade estética sobre a postagem ou meme, pensando no público e na natureza da publicação.

Importante criar uma unidade de conteúdo e um posicionamento simbólico (semiótico) nos memes, para se fortalecer uma narrativa própria.

Explicitou-se um pouco da experiência da rede Facción na Guatemala, num conturbado contexto político. O país passava por uma transição de governo, com pouca liberdade de expressão. E a população não estava satisfeita com a grande imprensa. Assim, a comunicação feita através da imprensa comunitária, com cobertura colaborativa, foi marcante. Com isso o país avançou na construção de uma história alternativa, que antes não era contada ou incluída em versões oficiais. Destacou-se o entendimento da internet como um território em disputa e da necessidade de se fazer o uso dela como uma ferramenta de mobilização social, principalmente em cenários de pós guerra, como foi o caso da Guatemala.

Foi falado sobre a experiência de criação do portal Desinformémonos. O projeto se iniciou de uma visão crítica à forma de se fazer jornalismo, refletindo sobre quem são os construtores das notícias, partindo do pressuposto que ninguém é inocente. A partir de um processo reflexivo-crítico sobre quem constrói a informação, é possível saber suas intencionalidades. Assim, a proposta foi utilizar o modo de fazer comunicação como ativismo, de esquerda.

A experiência do Facción no Equador também foi compartilhada. Naquele país, o portal é utilizado por grupos culturais indígenas, que integraram-se por entender o potencial de dar uso ao material de registro sobre suas culturas e lutas (fotos e vídeos), divulgando-os, dando visibilidade e transformando-os em políticos. Após a primeira experiência com o Facción, outros grupos e coletivos empoderaram-se, politizando-se, articulando-se e valorizando-se. Houve assim um fortalecimento no sentido da construção da comunicação popular.

Foi apresentado o Coletivo EndeMedio. Este coletivo, com o propósito semelhante às experiências anteriores, dá mais ênfase à imagem (fotografia), como potencial transformadora de realidades. Para este coletivo a fotografia é capaz de expressar a luta de classes e a comunicação, utilizando imagens, também deve ser utilizada como ferramenta política.

A experiência de Porto Rico foi vinculada também ao Facción. Foi mencionado que no Caribe, o coletivo foi responsável por cobrir a Marcha para a Diversidade. O impacto dessa ação refletiu no estímulo do pertencimento do país à América Latina, em uma apropriação de memória que havia sido apagada.

Extraiu-se com clareza que a produção da comunicação com essa intenção deve ser feita com uma construção coletiva, colaborativa. Só assim, é possível atender aos interesses comunitários. Esse novo entendimento de utilização das mídias tem surtido efeitos de envolvimento e empoderamento dos coletivos que se associam e trabalham coletivamente. Destaca-se que a forma de trabalho em rede permite uma estruturação flexível em cada país ou cidade, respeitando a organização cultural própria dos grupos envolvidos nas localidades. Por fim, ressalta-se que as experiências compartilhadas demonstraram que, neste processo de utilização das mídias de forma colaborativa e como ferramenta, há um fortalecimento e reconhecimento de identidades culturais antes marginalizadas.

Proposições e olhares para o futuro:

55% da população brasileira não tem acesso à internet. Por mais auspiciosos que sejam os processos e resultados decorrentes do uso das redes virtuais para combater a lógica do discurso único imposto pelos meios de comunicação a serviço da ideologia dominante, não é possível abrir mão da disputa pela ocupação de espaços no rádio e na televisão.

É importante atentar para o papel fundamental que deve caber à comunicação institucional e às tevês públicas. Os governos considerados mais progressistas não podem abrir mão de manter canais de diálogo direto com os cidadãos para não sucumbir em meio às campanhas oposicionistas movidas em bloco pela mídia tradicional.

Em tempos de novas plataformas, estéticas e linguagens, a tevê pública tem a responsabilidade de se apresentar como alternativa real de poder comunicativo para disputar o público com a tevê comercial, buscando trabalhar com lógica distinta. Se a tevê comercial vê o público como consumidor, é dever das tevês públicas comunicar-se com os expectadores enquanto cidadãos. Enquanto as tevês públicas insistirem em mimetizar a linguagem e a programação das tevês privadas, não conseguirão colocar-se como geradoras de opinião e contraponto viável às pautas impostas pela grande imprensa. A tevê pública precisa ser mais do que uma cópia ruim da tevê comercial para poder produzir efeitos distintos da alienação, pessimismo e consumismo.

Assim, fica claro que é uma demanda emergencial que os canais de mídia alternativa e as tevês e rádios públicas se desinfectem dos vícios e lugares comuns do jornalismo hegemônico. As novas mídias não são instrumento de controle social, mas o seu oposto, são ferramentas de organização da luta política.
A nós, em nosso tempo, cumpre a urgência do fazer, cumpre ocupar os espaços, descentralizar ações e, principalmente, pôr a criatividade a serviço das comunidades, da democratização da comunicação e da integração social, cultural, econômica e política.

A internet é uma ferramenta muito agregadora, pois através dela podemos unificar as pessoas em prol de uma causa. Nesse sentido, como transformar essa unificação proporcionada pelas hashtags efetivamente em uma rede social? Em uma rede para além do espaço virtual, que se organize também nas ruas ?

Algumas estratégias de uso das redes sociais por parte de coletivos, grupos e artistas, da algumas dicas para potencializar a comunicação com o público: integrar páginas as entre grupos de interesses, pessoas influentes, outros pesquisadores e criar parcerias; distribuir conteúdo para parceiros e canais já existentes; munir pessoas de conteúdos e materiais exclusivos; pensar a estética e a linguagem dos conteúdos; avaliar a frequência e a quantidade de publicações/postagens a partir do horário e do público a ser sensibilizado; desenvolver linguagens adequadas para cada rede social; acompanhar os conteúdos da internet e aproveitar as ondas de informação existentes; criar sua própria narrativa/linguagem para cativar o público;