“Precisamos de democracia lato sensu”

Cultura e Democracia Principal

A mesa que debateu Cultura e Democracia na manhã da sexta-feira, dia 11, na Fundição Progresso, como parte da programação do Emergências, se transformou em um grande ato em defesa da legalidade constitucional do Brasil, contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e pela manutenção das conquistas sociais, igualdade de direitos e oportunidades para todos.

O próprio ministro da Cultura, Juca Ferreira, mediou a discussão. Em diversos momentos, as falas foram interrompidas pelo coro uníssono do público, que gritava “Não vai ter golpe!”. Temas recorrentes, tanto entre os debatedores quanto nas intervenções da plateia, foi a democratização dos meios de comunicação e a integração cultural latino-americana.

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Pelo tablado principal da Fundição Progresso passaram quatro deputados federais – Jean Wyllys (PSOL/RJ), Jandira Feghali (PcdoB/RJ), Benedita da Silva (PT/RJ) e Wadih Damous (PT/RJ) – ; o senador Lindbergh Farias (PT/RJ); o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá; o ex-eurodeputado e principal articulador do Partido Livre (Portugal), Rui Tavares; a jornalista e consulesa da França, Alexandra Loras; e a senadora uruguaia pela Frente Ampla (coalizão de centro-esquerda), Constanza Moreira. Representando os povos indígenas, falou o líder Benki Pianko, dos Ashaninka, que vivem na região da fronteira entre Brasil e Peru, no Acre.

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“Neste momento em que estamos com a nossa democracia ameaçada pelos plutocratas, o Emergências presta um serviço ao colocar lado a lado as diferentes esquerdas do país. É hora de deixarmos de lado as diferenças, parar com o fogo amigo, e focar no que é essencial, que é a defesa da nossa democracia”, afirmou Jean Wyllys.

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Sobre a relação entre cultura e democracia, ele acredita que o sistema político brasileiro está enrijecido e ultrapassado, mas a cultura política da sociedade está se transformando. “O Emergências é a prova dessa transformação”, afirmou.

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O deputado denomina esse sistema rígido de “democracia em agonia”, em que a participação popular é pequena e predomina a força econômica. “O sistema está blindado, é por isso que o Eduardo Cunha, apesar de todos os crimes pelos quais é formalmente denunciado, permanece na presidência da Câmara”, destacou.

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Negra, a consulesa francesa levantou aplausos inflamados do público quando falou do genocídio de jovens negros no Brasil. “Cento e cinquenta jovens negros morrem todos os dias nas periferias das grandes cidades brasileiras. O número é maior dos que morreram no recente atentado em Paris”, disse. “É preciso avançar nesse debate”.

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Benedita da Silva também falou sobre a discriminação racial no Brasil. Dirigindo-se ao ministro e ao público que lotava o espaço do debate, pediu uma “cultura revolucionária de igualdade” e parabenizou a iniciativa do Ministério da Cultura. Lembrou, ainda, que é preciso sinalizar para o “resto do mundo” as “ameaças” ao Estado Democrático de Direito que o país sofre no momento.

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“Quero cumprimentar o ministério e os coletivos pela formatação de um evento com essa pluralidade, com essa possibilidade de trazer para nós o que se chama Brasil profundo. As coisas emergem do Brasil real”, afirmou Jandira Feghali. “Muitos dizem que temos um idioma, mas nós temos 180 línguas indígenas que precisam ser reconhecidas e valorizadas. É essa diversidade, essa pluralidade, que torna absolutamente óbvio falar de cultura e democracia”.

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A deputada comunista destacou que a diversidade étnica e social brasileira não está representada no Congresso Nacional. “Só existem 14 deputados que se declaram negros, um que se declara homossexual e há apenas nove por cento de deputadas mulheres na Câmara federal”, lembrou. “Incide sobre essa representação o poder econômico” explicou.

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Para ela, o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, aprovado recentemente, foi um grande avanço. Outra distorção que apontou é a “quebra da laicidade do Estado, quando bancadas religiosas acham que estão acima da lei”.

“Nós precisamos de democracia lato sensu, não é só o voto, nós precisamos democratizar os meios de comunicação, precisamos da pluralidade, precisamos que as mulheres sejam respeitadas, precisamos que a homoafetividade seja reconhecida como valor e não de modo depreciativo”, disse.

Após as exposições dos que estavam à mesa, o microfone foi aberto ao público, e uma fila de pessoas de todas as idades, cores e procedências do Brasil e da América Latina se formou rapidamente, expressando o desejo de mudança e a indignação com o momento político do país.

Falando à reportagem, Juca Ferreira disse que o Emergências superou as expectativas. “Esperávamos duas mil e quinhentas pessoas, vieram mais de dez mil, ainda não temos o número exato”, disse.

O ministro também acredita que a realização do Emergências vai alimentar novos debates. “Foram discutidos temas importantes para a humanidade e para o Brasil, que evidentemente terão desdobramentos em novos encontros que tratem da relação da cultura com a questão das mulheres, do meio ambiente, do racismo, da xenofobia. Houve um espírito colaborativo enorme, todos estão de parabéns”.

Marcelo Leal
Do Escritório de Santa Catarina
Ministério da Cultura