Fissuras no Capital: experiências de economia solidária

Fissuras no CapitalO palco central do centro cultural Fundição Progresso (RJ) recebeu na última quarta-feira, 9, atores e pensadores do tema Economia Solidária, dentro da programação do Emergências.

Mediados pelo jornalista Antônio Martins, compuseram a mesa de debate o economista e secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, Paul Singer; a criadora do movimento Crie Futuros e especialista mundial em Economia Criativa & Desenvolvimento Sustentável, Lala Deheinzelin; o fundador do Banco Palmas, Joaquim Melo; o deputado uruguaio Óscar Andrade; o fundador do projeto Traficantes de Suenõs, David Gámez; e Sofía Coca Gamito, coordenadora do Copylove e Zemos98.

Paul Singer apresentou uma outra visão de fissura no capitalismo, como uma ferida que deteriora o próprio sistema. “A grande fissura no capitalismo é o neoliberalismo, que nós estamos sentindo agora na pele. Os trabalhadores estão sofrendo. Os capitalistas também. As empresas estão fechando. A indústria automobilística mandou milhares embora. A construção civil, que é a que mais emprega trabalhadores, fez o mesmo”, destacou.

“Isso não me permite dizer que, amanhã, nós vamos estar no socialismo. Infelizmente, não dá para dizer isso, mas eu estou feliz porque temos uma alternativa ao capitalismo que funciona melhor que o próprio capitalismo para deixar a humanidade em condições melhores”, completou o economista.

Singer se referia a inúmeras ações mundo afora com base na economia solidária, ou seja, aquelas com um modo de produção que se caracteriza pela igualdade, na qual os meios de produção são de posse coletiva e os empreendimentos são geridos pelos próprios trabalhadores.

Ainda sobre a linha da discordância dos reflexos negativos do capitalismo, o deputado Óscar Andrade, presidente da Comissão de Direito do Trabalho da Câmara dos Deputados do Uruguai, chamou a atenção para o que classificou de “crise humanitária mundial”.

Ele citou dados da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2014, que apontavam que, pelo menos 20,9 milhões de pessoas no mundo estão sujeitas a formas modernas de escravidão, que inclui práticas como casamentos forçados de crianças, escravidão sexual, exploração, servidão doméstica e trabalho forçado.

“Precisamos construir alternativas e se construir o poder dentro da sociedade. Precisamos de uma América Latina que enfrente, que faça uma ofensiva contra esta situação”, afirmou Andrade.

Empreendedorismo

A jornalista Sofía Coca Gamito iniciou em 2012, na Espanha, uma investigação sobre quais vínculos permitem uma comunidade permanecer unida de forma sustentável, com base em três conceitos: individualidades frente a singularidades; a memória e o de colocar a vida no centro de suas jornadas e não o trabalho. “Durante minhas pesquisas, observei que há outras maneiras de produzir economia, conhecimento, conexões. Há coletivos com base social que trabalham com temáticas culturais, feministas. Há gente que coloca em prática moedas alternativas de troca (sem valor monetário)”, exemplificou.

Já com enfoque no fomento e distribuição de recursos, o cearense Joaquim Melo contou como foi a criação do que chamou de “primeiro banco comunitário do Brasil”, o Banco de Palmas. Fundado em 1998, no Conjunto Palmeira, bairro da periferia de Fortaleza (CE), ele opera sob o princípio da economia solidária. “Não queremos acabar com banco nenhum. Queremos ser uma alternativa”, resumiu.

A gestão do banco é feita de forma local pela associação dos moradores, com a contribuição de voluntários, cuja missão é implementar projetos de trabalho e geração de renda focados na superação da pobreza urbana e rural, com oferta de microcréditos para produção e consumo local. Atualmente, eles contam com 110 bancos, em 20 estados com 600 mil associados.

Para mostrar um pouco do que as culturas tradicionais de matriz africanas vêm desenvolvendo em relação ao tema pelo Brasil, Antônio Martins chamou ao palco a Mãe Isabel, de Hortolândia, interior de São Paulo, que participa do grupo de trabalho de economia solidária do movimento Cultura Viva.

Isabel contou da sua atuação na capacitação com jovens e novos empreendedores no desenvolvimento de produtos, identidade, produção de moda e gastronomia.

“Eles aprendem a ter um outro olhar sobre produção, empreendimento e gerar renda, sem se distanciar do histórico deles. A relação com o consumidor é muito importante. Enquanto na economia capitalista o que importa é o dinheiro, na solidária é o ser humano”, afirmou.

David Gámez, fundador do projeto Traficantes de Suenõs, contou um pouco da experiência de 20 anos do projeto na Espanha, que entende o livro como ferramenta de transformação individual e coletiva. O projeto inclui uma livraria associativa, uma distribuidora, uma editoria, uma oficina de desenho e espaço de formação e produção.

De acordo com Gámez, os dois princípios fundamentais para ampliação e desenvolvimento do projeto foram autogestão e autonomia. “Nós nos encontramos em um momento de dar um passo na construção da realidade. Acredito que haja uma abundância absoluta de criatividade e produção. O desafio é organizar essa abundância para melhorar a qualidade de vida de todos que compõem a sociedade”, avaliou.

A última contribuição para ao debate foi de Lala Deheinzelin, que provocou o público a pensar novas formas de atribuir valores aos objetos, ações e informações. Ela trabalha com o que chama de visão 4D (financeiro, ambiental, social e cultural). “Se a gente percebe que tudo na vida é multidimensional, talvez se consiga atribuir valor”, afirmou.

“Economia não é só moeda. São recursos sociais, culturais, ambientais. Resultado não é só moeda. Resultado é o que eu gero, o que eu otimizo de valores humanos, de conhecimento, de criatividade, de infraestrutura, não só da natureza, mas de ações conjuntas. Se a gente consegue enxergar isso, a gente consegue obter crédito”, concluiu.

Camila Campanerut
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura