Emergências denuncia violência contra o jovem negro e pobre

Consulessa françaA violência contra a juventude, sobretudo a negra, e o papel que a segurança pública cumpre para evitar ou agravar esse quadro estiveram em discussão na tarde desta sexta-feira (11) no Emergências. A mesa intitulada Juventude Viva e Segurança Pública contou com debatedores do Brasil, Estados Unidos, França e Uruguai e aconteceu no Museu Histórico Nacional, na área portuária do Rio de Janeiro (RJ).

Uma crítica contundente ao sistema de segurança pública brasileiro partiu do Coronel Ibis Pereira. O militar classificou como injustificável os fatos de, no Brasil, haver um morto a cada 10 minutos, da polícia matar uma pessoa a cada três horas e de, em 2014, 398 policias terem sido mortos, enquanto nos Estados Unidos foram 47. Segundo o coronel, o Brasil registra cerca de 40 mil estupros por ano. “E a gente sabe que tem uma subnotificação aí, pode multiplicar por três”, alertou.

Tamanha violência tem raízes históricas. Para Ibis Ferreira não é possível debater questões como essa sem chegar ao período escravocrata ou a ditadura militar que, na década de 1970, aderiu à guerra mundial às drogas, mudando paulatinamente o foco do combate à subversão para o combate ao tráfico. “Mas a guerra no Brasil está posta desde a sua origem, com Canudos. Contam que foram 20 mil massacrados, mas foram muitos mais. E hoje, o Brasil massacra dois Canudos por ano. Aqui tivemos mais mortos em 2014 do que soldados norte-americanos em 20 anos de guerra no Vietnã”, criticou.

A consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, também destacou a importância de conhecermos a história para descontruir o mito de que o Brasil é o país da alegria, da paz e onde não há racismo. “Por ser negra, sempre me perguntam aqui se sou mesmo francesa”, relatou, agregando que os estereótipos reforçados ou a sub-representação dos negros na mídia de massas ajudam a agravar esse quadro.

“No Brasil morrem 150 jovens negros por dia. Mas existe uma pirâmide de emergências que não coloca esse problema no topo. É um absurdo como não estamos falando mais na mídia sobre esse assunto, mas, se morre um jovem branco…”, questionou.

Moradora da periferia de Missouri, Sant Louis, nos Estados Unidos, Ashley Yates é uma social media que ajudou a organizar mobilizações em protesto à morte do jovem Michael Brown em seu bairro por um policial, em agosto do ano passado. As mobilizações alcançaram diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo e foram motivo de uma declaração pública do presidente Barack Obama.

De acordo com Yates, entre as formas de protestos estava a ocupação pacífica de ruas e de “lugares chiques”, com intuito de escancarar o racismo presente na sociedade norte-americana. “Eles só nos ouvem quando afetamos a economia. Levamos nossos protestos para onde os negros não deveriam estar. Para que eles entendam porque um a cada três negros nos Estados Unidos vai para a prisão”, relatou.

Vindo do Uruguai, o integrante da organização ProDerechos, Andrés Risso, resgatou a mobilização histórica em seu país, que derrotou em plebiscito a proposta de redução da maioridade penal. A campanha protagonizada por eles conseguiu com que o apoio à proposta caísse dos 70% do eleitorado uruguaio – conforme indicavam institutos de pesquisa – para 47% – resultado que alcançaram nas urnas.

O objetivo do grupo agora é conquistar avanços na legislação penal e no sistema carcerário. “Em primeiro lugar, estamos pleiteando medidas que ampliem as penas alternativas ou não-privativas de liberdade. Queremos também repensar o sistema de educação nos presídios e um sistema de avaliação das cadeias”, disse.

O rapper Flavio Renegado destacou que uma trincheira importante na luta contra o extermínio da juventude negra no Brasil é a luta contra o abuso dos autos de resistência, instrumento que permite à polícia justificar mortes em situação de conflito, mas que também é utilizado para encobrir assassinatos.

“Fomos à Brasília pedir a aprovação dessa medida, mas a bancada da bala não permitiu. Sabe porque? Porque eles perderiam a licença para matar”, disse.

Vinicius Mansur
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura