Por uma nova cultura da água e da floresta

BenkiUma pequena amostra do que pode vir a ser o futuro próximo foi sentida na pele em 2014 e 2015. Seca no Sistema Cantareira em São Paulo. Destruição pela mineração da Bacia do Rio Doce. Surto de microcefalia originado pelo vírus transmitido pelo Aedes aegypti. E a chapa pode esquentar ainda mais, segundo a coordenadora da Aliança pela Água, Maru Whately, que participou, nessa quarta-feira (10), da roda de conversa sobre Amazônia, aquecimento global e mudanças climáticas, no Emergências, ao lado do ashaninka Benki Piyãko e da jornalista Kátia Brasil, do site Amazônia Real.

Líderes mundiais se reuniram na COP 21 – Conferência do Clima de Paris 2015, nesses dias, para estabelecer como limite um aumento de dois graus celsius no clima até 2100, conforme explica Maru. Passou disso, ninguém sabe quem paga a conta. Caso o aquecimento global chegue a 3 graus, segundo dados apresentados por ela, até o fim do século, 60 milhões de pessoas serão vítimas de inundações, 1,75 bilhões vão passar por estresse hídrico e 4,5 bilhões vão sofrer com ondas de calor.

“As mudanças já estão aí. Este é um acordo mundial com impasses: os países podem se comprometer a reduzir o desmatamento, diminuir a queima de combustível, mas quem vai bancar a adaptação do planeta, das pessoas e dos locais com esse aumento?”, questionou ela. “Temos um clima amigo que nos permite respirar, alimentar e morar, mas com o aumento da temperatura, perdemos a previsibilidade para plantios, pesca, mobilidade, moradia etc.”.

Por uma nova cultura da água e da floresta

Maru propôs que sociedade e governo repensem na segurança hídrica, no cuidado com a água. “Água não é responsabilidade só de uma instância, isso é muito mais complexo. Se a gente quiser ter água, precisa cuidar das fontes, dos mananciais, das nascentes, da floresta”, afirmou. “A gente precisa de uma nova cultura para a água, que passe pelo controle social do desperdício e pelo saneamento” , completou, citando o surto de microcefalia no País associado ao Aedes por falta de saneamento básico.

Depois da demarcação de suas terras, em 1992, os índios Ashaninka, do rio Amônia, no Acre, passaram também a executar uma série de projetos de desenvolvimento sustentável em busca de alternativas para a exploração madeireira.

A preocupação dos Ashaninka com o meio ambiente e o uso sustentável de seus recursos é visível. Eles são considerados um exemplo bem-sucedido da nova orientação política do desenvolvimento amazônico. Segundo Benki Piyãko, cerca de 1.300 ashaninka vivem no Acre, enquanto outros 110 mil ashaninka estão no Peru. Ele afirmou que madeireiros e traficantes são uma ameaça à população da região.

No Emergências, Benki Piyãko esteve presente em diversos debates, alertando para um mundo de escravidão decorrente da poluição, da monocultura, da exploração mineral e do desmatamento.

Como inspiração para a um novo horizonte político e social, ele apresentou o projeto para o Alto Juruá, que receberá neste ano R$ 6,6 milhões do Fundo Amazônia/Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Este é o primeiro projeto concebido e apresentado diretamente ao Fundo Amazônia por uma comunidade indígena, sem intermediação do setor público ou de ONGs.

O objetivo é promover o manejo e a produção agroflorestal nas comunidades, de modo a constituir alternativa econômica sustentável ao desmatamento, além de apoiar iniciativas de monitoramento e controle do território na região do Alto Juruá/Acre. “Ele faz parte da nossa estratégia de proteção do território e da nossa visão de mundo, que são nossos espíritos e nossa floresta”, disse.