Lugar de mulher é em todos os lugares, onde ela quiser

(foto de Cobertura Colaborativa) (foto de Cobertura Colaborativa)

A luta das mulheres tem espaço expressivo no Emergências. Desde o começo do encontro, na última segunda-feira (7), até esta quinta-feira (10), foram realizadas ao menos três atividades por dia com essa temática. Entre elas, está a mesa Lugar de Mulher é, realizada no palco principal da Fundição Progresso, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro (RJ), na tarde dessa quinta-feira (10).

“Lutamos para ter um lugar ou para estar em todos os lugares?”, provocou a senadora uruguaia Constanza Moreira, iniciando o debate. Antes de qualquer coisa, respondeu, as mulheres lutam para desconstruir o lugar destinado a elas desde o início dos tempos.

Na opinião da senadora, essa luta envolve, fundamentalmente, o combate à escravização do corpo da mulher – no qual a descriminalização do aborto é central – e à escravização da mulher enquanto um corpo – em que o protagonismo das mulheres na produção intelectual, por exemplo, é crucial.

O papel da mulher na família, sendo a mãe de todos os sacrifícios e cuidados, e a divisão sexual do trabalho, incluindo aí as desigualdades salariais existentes, são outras desconstruções essenciais a serem feitas, segundo Constanza Moreira. “Nós não queremos um lugar. Lutamos para sair de alguns lugares, mas o que queremos no final é o direito de pensar o nosso lugar e poder ocupar todos”, resumiu.

Nas palavras da coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres, Nalu Faria, a luta feminista “não é só para a gente entrar no espaço público”, mas é para reorganizar toda a sociedade, que divide o que é papel do homem e o que é papel da mulher em falsas dicotomias, como produção e reprodução; político e pessoal; família e trabalho; economia e trabalho doméstico; razão e emoção; e cultura e natureza.

“Essas falsas dicotomias sempre têm o objetivo de valorizar os aspectos que estão assignados como masculinos e desvalorizar aqueles que foram colocados nos ombros das mulheres, e aí muito com base na divisão sexual do trabalho”, explicou, agregando que, ao longo de toda história, se pode verificar que as mulheres sempre trabalharam em todas as áreas.

Outra falsa dicotomia, na opinião de Nalu Faria, é dividir a atuação política entre movimento de mulheres e movimento feminista. “Bete Lobo falava que, quando as mulheres estão lutando por água, posto de saúde, escola, asfalto, uma das coisas que elas estão fazendo é rompendo esse confinamento no espaço privado e questionando a divisão sexual do trabalho, por mais que isso não esteja explícito em seu discurso”, pontuou.

Trabalhadoras sexuais

A secretária-geral do Sindicato de Mulheres Meretrícias da Argentina, Georgina Orellano, destacou que as trabalhadoras sexuais começaram a se organizar, primeiro, para não serem presas e, depois, para reivindicaram acesso à saúde integral. “Não sabíamos como entrar na política não como mulher vítima, mas como sujeitos de direitos que lutam coletivamente”, explicou.

Muito inspiradas na luta dos coletivos LGBT, que haviam conquistado o direito ao matrimônio, e das Transsexuais, que conseguiram o direito de declarar seu gênero, a organização das trabalhadoras sexuais argentinas se dedicou a construir uma agenda política capaz de pautar suas demandas e lhes dar espaço público. “Percebemos que o governo e a sociedade estavam escutando as minorias, sobretudo as sexuais”, explicou.

Uma das grandes dificuldades de sua categoria, afirmou Georgina Orellano, é o fato de não serem reconhecidas como tal pelo Estado, o que leva a não serem chamadas para discutir as políticas públicas. Situação que é agravada pelo duplo obstáculo de não serem reconhecidas como trabalhadoras por algumas das organizações sindicais e não serem reconhecidas como protagonistas de uma luta das mulheres por algumas das organizações feministas. “É preciso entender que toda a classe trabalhadora não decide livremente que trabalho fazer, aonde trabalhar”, criticou.

Integrante do Fórum de Juventudes da Grande Belo Horizonte, Áurea Carolina ressaltou que, para ela, o feminismo só faz sentido se estiver aberto a se articular com outras lutas. “Para mim, não existe feminismo seletivo que não aceita discutir a realidade das trabalhadoras sexuais, que não topa discutir a emergência do genocídio indígena, da juventude negra. Não faz sentido se a gente não rever nossa ética e conduta cotidiana”, afirmou.

Outra dimensão importante para a luta política, disse Áurea Carolina, é o amor. “Acredito realmente que é possível exercitar esse amor como um afeto que a gente trabalha positivamente, desde o nosso convívio, não como um amor romântico, mas como o amor que se traduz em gestos, em conduta, em proceder, em atitude, em corresponsabilização, em convivência respeitosa”, concluiu.