Das hashtags para as ruas

(foto da Cobertura Colaborativa)

Sair do guarda-chuva das hashtags para fortalecer a mobilização no “mundo real” é o principal desafio da comunicação digital e ideológica atualmente, com o objetivo de fazer ecoar assuntos que estão na agenda do dia, como o feminismo e a democratização da imprensa. Esta percepção perpassou o discurso de praticamente todos os debatedores da roda “A gente não se vê por aqui + Mídia e representatividade”, realizada na Fundição Progresso na quinta-feira (10).

O evento discutiu algumas das iniciativas que surgiram nas redes e tomaram as ruas ou ganharam reverberação na mídia em países como Brasil, Argentina e Uruguai. Depois da repercussão da hashtag #meuprimeiroassedio, lançada pela ONG Think Olga em outubro, o grupo está compilando histórias e iniciativas de mulheres inspiradoras que tiveram protagonismo durante o ano de 2015 para municiar meios de comunicação em seu conteúdo. “Não é uma premiação. É para que a imprensa não se queixe da falta de mulheres em determinadas áreas. Não falta mulher trabalhando em área nenhuma. A gente só precisa dar espaço para elas”, disse a publicitária Luise Bello, uma das gerentes da ONG. Ela lembrou a suspensão de campanhas machistas de marcas de cerveja, como o “Esqueci o ‘não’ em casa”, lançada pela Skol antes do carnaval deste ano, ao atestar que a reação feminina nas redes já repercute concretamente.

Manô Miklos, uma das articuladoras da campanha #agoraéquesaoelas (subsequente ao #meuprimeiroassedio), chamou atenção para a lógica diversa e multidimensional de raciocínio do usuário da internet, que precisa ser incluído nas bandeiras ideológicas lançadas pela rede, ainda que pense diferente: “A lógica de timeline já está na nossa cabeça. Eu me comovo com o urso polar, depois presto atenção na história de uma mulher negra e acho uma gracinha o vídeo do gatinho. As organizações sociais precisam conseguir mobilizar e dialogar com as pessoas que pensam assim. Precisam ser generosas e saber incluir quem está do outro lado”. Ao fim de sua fala, ela destacou o papel da comunicação nas mobilizações e questionou: “Será que toda organização social não deveria ser também uma organização de ativistas de comunicação em algum nível?”

É na busca por este público que o publicitário e militante Leo Casalinho ajudou a criar o perfil de redes “Haddad Tranquilão”. O objetivo principal é transmitir de forma satírica as políticas e realizações da prefeitura, levando-se em consideração principalmente a baixa aprovação do prefeito na cidade (cerca de 15%). “A comunicação do Haddad não era boa. Praticamente não existia”, analisa. Pelo menos na rede, o índice subiu entre o público atingido pelo perfil (faixa etária de 20 a 30 anos). Agora, o desafio é levar esta mudança para o ambiente real.

Penetrar na bolha dos discursos que se encerram entre convencidos também é uma das frentes de batalha do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão do Itararé, que há anos luta pela democratização da imprensa no país e por uma lei para regular os meios de comunicação. “A gente corre o risco de construir uma narrativa, criar um universo paralelo e encontrar apenas nossos iguais. Isso acaba nos isolando. Se a gente medir pela opinião pública das nossas redes, achamos que podemos fazer a revolução amanhã. Mas quando partimos para a realidade, levamos um tapa na cara”, disse Ana Flávia Marques, uma das coordenadoras da instituição.

No exterior

A campanha #niunamenos foi criada no primeiro semestre deste ano a partir de uma onda de assassinatos de mulheres jovens na Argentina. A proposta cresceu de tal forma que reuniu quase 1 milhão de pessoas em uma marcha pelas ruas de Buenos Aires, no dia 3 de junho. Mas, além da passeata, o assunto conseguiu chegar aos meios de comunicação hegemônicos, redefinindo o tipo de cobertura que atribuía às mulheres a culpa pelos crimes, direta ou indiretamente. “Produzimos um boca a boca que não se restringiu às redes. Elas são um suporte que permite ‘contradiscursos’. Isso é muito valioso, mas não podemos ficar apenas neste âmbito”, disse a jornalista Marta Dillon, do jornal Página 12, um dos principais do país.

No Uruguai, o movimento Proderechos começou a se organizar em 2011 a campanha “No a la baja”, para mostrar que baixar a maioridade penal não é a solução para reduzir os índices de criminalidade. Na época, a opinião pública indicava que o apoio popular à redução era de quase 70%. “Não tínhamos muito dinheiro para fazer a divulgação da nossa campanha. Primeiro, montamos um grupo de pesquisa para estudar o tema e em seguida partimos para a internet. Mas também não deixamos de percorrer todo o país para conversar com as pessoas. Em cada localidade, o contexto era muito diferente e aquelas ideias ressoavam de forma diferente também”, afirmou Diego Pieri, integrante do movimento. A medida não passou no plebiscito realizado em 2014. Mas, apesar da conquista, ele ainda se mostra cético e consciente sobre o real impacto da campanha no país. “Não sabemos ainda exatamente qual a extensão da nossa contribuição para uma mudança de cultura sobre a criminalidade no Uruguai”, concluiu.

Maria Martha
da Cobertura Colaborativa