Futuros possíveis para a América Latina

(foto da Cobertura Colaborativa)

Mediada pelo gestor cultural e comunicador boliviano Juan Espinoza, a Roda de Conversas América Latina: futuros possíveis, realizada na manhã desta quinta-feira, dentro do Emergências, teve a participação do diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, e reuniu políticos, ativistas culturais e um público engajado na discussão proposta.

“Tem muita gente se perguntando se saímos de uma era progressista e entramos numa era conservadora. Eu acho que não, os direitos conquistados na última década não serão tirados tão facilmente”, afirmou a senadora uruguaia pela Frente Ampla (coalizão de centro-esquerda), Constanza Moreira.

O contexto para as afirmações da senadora são as recentes vitórias eleitorais dos partidos conservadores em alguns países da América Latina, como Argentina e Venezuela. “O futuro possível pode não ser desolador, dependendo do que a gente faça”, ressaltou.

Segundo ela, partidos identificados com a esquerda têm sido “ambíguos” em relação a temas emergentes, como o direito das mulheres ao aborto, os direitos dos indígenas, das comunidades LGBT, entre outros. “Os governos têm que dar sinais mais claros nesse sentido”.

Para Constanza, um dos desafios é unir os setores progressistas da sociedade em torno de uma “agenda positiva”. “É fácil juntar as pessoas para o não, como o ‘Fora Cunha!’. Para o sim, é mais complexo, mas precisamos de agenda mínima que nos una”, disse.

A senadora acredita que o futuro da América Latina passa pela “batalha cultural”, em que os direitos dos índios, as questões de gêneros e a luta contra o racismo são temas centrais.

Manuel Rangel destacou a importância da integração latino-americana para enfrentar os desafios emergentes dos próximos anos. “Nosso futuro é parte do futuro da América Latina”, afirmou. “O Brasil, por muito tempo, se comportou como uma ilha e nossas conexões eram com a Europa ou com a América do Norte”.

O presidente da Ancine acredita que o audiovisual tem uma função importante nessa integração. “Nós nos reconectamos com o nosso continente na última década. Significa que, juntos, vamos pensar caminhos. E o cinema, o audiovisual, é o lugar por excelência para pensar e construir cenários futuros, é um amalgama entre nossos povos”, afirmou.

O professor e deputado uruguaio Sebastián Sabine, da Frente Ampla, também aponta para a integração latino-americana. “O mundo está constituído hoje em blocos, na maioria dominados por uma perspectiva liberal como a União Europeia, mas creio que é possível construir blocos com uma perspectiva popular e contra hegemônica em nível internacional”, ponderou.

Ele acha que, apesar dos avanços garantidos pelos governos progressistas na América Latina, é preciso avançar mais em políticas sociais de integração para construir “um futuro que não seja com mais mercado, e sim com mais direitos”.

Da plateia vieram diversas manifestações que pontuaram a necessidade de os partidos de esquerda se reconciliarem com os movimentos sociais e mostrar clareza quanto às questões emergentes ligadas à sexualidade, liberdades individuais, comportamento e ao meio ambiente. “Temos que pensar o modelo de esquerda que queremos”, disse uma ativista boliviana.

Participaram da Roda de Conversa como expositores, ainda, o boliviano Ivan Nogales, do Conselho Latino Americano de Cultura Viva Comunitária; Jefferson Assunção, escritor e ex-secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul, e Priscila Miranda, diretora e criadora da Tucuman, a primeira distribuidora brasileira de filmes latino-americanos. O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Pola Ribeiro, acompanhou o debate junto à plateia.

Marcelo Leal
Do Escritório de Santa Catarina
Ministério da Cultura