Hackers, governabilidade e diálogo cidadão: desafios da internet pós-utopia

Em um balanço sobre o papel da internet no mundo nos dez últimos anos, especialmente para a política, os participantes da roda “Tecnopolíticas e Cultura Digital”, realizada na Fundição Progresso, nesta quarta-feira (9), perceberam que a época de deslumbramento da década passada ficou para trás. Uma das unanimidades entre os debatedores é a necessidade de recuperar para os cidadãos a chance de controlar as redes tecnológicas. “É preciso construir rotas de saída dos territórios comandados pelas grandes corporações de software. É uma emergência que temos. Possuímos técnica para isso, mas também necessitamos de decisão política”, resumiu João Paulo Mehl, articulador da RedeLivre.

A trajetória de Niv Sardi resumiu bem a transformação da internet de um espaço repleto de jovens que acreditavam em uma revolução tecnológica para um ambiente oligopolizado por grandes empresas. Nerd assumido, o fundador do Popcorn Time (já visto como concorrente do Netflix) morava na França quando foi lançado o episódio 1 de “Star Wars – A Ameaça Fantasma” (1999). Como o filme chegaria com atraso no país, ele começou a fuçar novas ferramentas que o permitiriam ter acesso ao longa o mais rápido possível, ainda na alvorada da rede. “Eu me aprofundei no Linux e vi que a simples palavra me abria portas. Depois, estudei matemática e resolvi me prostituir em trabalhos de engenharia. Trabalhei na Airbus, o que eu achava muito louco, porque com vinte e poucos anos não acreditava que tinha idade suficiente para tamanha responsabilidade. Naquela época, não éramos empreendedores. Não entendíamos muito bem por que servíamos a grandes empresas. Achávamos que poderíamos mudar o mundo com o software livre. Mas em algum momento, não sei quando, o dinheiro mudou tudo. O mundo percebeu que poderia fazer fortuna com isso. De repente estava todo mundo trabalhando no Google, Facebook e Amazon. E a circulação de ideias começou a diminuir”, relatou.

Para evitar o fatalismo, Niv destacou que, apesar da chegada do pragmatismo entre os “nerds revolucionários”, muitos deles perceberam a importância de criar políticas públicas para chegar mais longe: “A esperança é que hoje temos todas as ferramentas técnicas que necessitamos para fazer isso”.

Peter Sunde, um dos fundadores do site Pirate Bay, lembrou que, quando da sua criação, em 2003, a discussão sobre cultura digital era exígua. Na época, não existiam regras ou exemplos a serem imitados. “Uma das mudanças que observo hoje é que as novas ferramentas digitais são mais pensadas para gerar renda com a cultura do que para transformar a cultura em algo melhor. Muitos espaços que eram mais abertos, cheios de hackers, se tornaram locais de recrutamento para grandes empresas. Isso é reflexo da sociedade em que vivemos e do estilo de vida capitalista”, avaliou.

Alessandra Orofino é cofundadora da plataforma Meu Rio, que desenvolve metodologias de influência e pressão em legisladores e governantes locais. Ela destacou o papel determinante do mundo digital nas eleições atualmente e lembrou a exitosa experiência da campanha de Barack Obama, em 2008. Embora o modelo tenha se reproduzido mais timidamente ano passado no Brasil, ela enxerga uma importante lacuna a ser preenchida: “O poder descentralizador da rede foi mais presente na campanha que na administração. Mas lutamos para que ele esteja nos dois âmbitos. Nosso desafio é descentralizar não apenas o poder de eleger alguém, como também o de governar”.

Coordenador-geral de Cultura Digital do MinC e um dos criadores do Brasil.gov.br, na alvorada da internet, José Murilo Carvalho contou que, como servidor federal de distintos governos, vivenciou transformações impostas pela internet desde 1997. Um dos principais resultados foi site Cultura Digital. Lançado em 2009, ele acabou se tornando o espaço onde o Marco Civil da internet foi construído. “Quando o Ministério da Justiça precisou constituir a primeira lei colaborativa do mundo, havia esta plataforma disponível e consolidada”, ressaltou.

Maria Martha
Da Cobertura Colaborativa