“Eu sou, me importo e financio o que quero ver acontecer”

(foto de Cobertura Colaborativa)

(foto de Cobertura Colaborativa)

Na tarde dessa terça-feira (8), na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, uma das rodas de conversa no Emergências foi a de Plataformas de Financiamento Coletivo. O secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura (MinC), Carlos Paiva, mediou um debate com a presença de representantes de plataformas do Brasil – Ana Alyce Ly (Variável 5), Bernardo Obadia (Bookstart), Bernardo Pauleira (Embolacha) e Felipe Caruso (Catarse) – e da Suécia – Peter Sunde (Flattr.com).

“A ideia desta mesa é apresentar tendências do que há de interessante na cena do financiamento coletivo”, introduziu Carlos Paiva na abertura. O debate, que durou cerca de duas horas, pautou temas como regulamento do financiamento coletivo no Brasil, capacitação de agentes culturais para potencialização do uso desta ferramenta, desburocratização do financiamento de projetos e modos de inclusão de ações comunitárias e periféricas neste mercado. Em especial, foi feito um contraponto entre os mecanismos de fomento do poder público e as práticas de engajamento da sociedade para realização de uma ideia comum.

“Estamos nos posicionando não como uma tendência, mas como uma realidade”, destacou Bernardo Obadia, enquanto apontava que a arrecadação do financiamento coletivo no mundo pulou de US$ 6 bilhões, em 2013, para US$ 16 bilhões, em 2014.

“O realizador não precisa de ajuda: precisa de mercado”, defendeu Bernardo Pauleira. Todos foram unânimes em considerações a respeito do posicionamento da ação: não se trata de filantropia, nem caridade. São investimentos com finalidades objetivas, que retornam em realização prática para o público que acredita no projeto. “Se as pessoas querem financiar, então vamos financiar – se não for crime, claro”, resumiu Felipe Caruso. “O financiamento coletivo é a revolução da participação, um novo paradigma de responsabilização: eu sou, eu me importo e eu financio o que quero ver acontecer”, concluiu Felipe.

Ponderando sobre as questões de burocracia relacionadas à gestão de recursos de linhas de fomento públicas, os palestrantes comentaram as vantagens do crowdfunding (financiamento coletivo). “O que diferencia é nossa agilidade. Um projeto realizado com financiamento público tem trâmites que duram anos. Nossas campanhas duram 60, 70 dias”, explicou Ana Ly, que ainda relatou: “Houve o caso de um projeto que girava em torno da temática dos transgêneros e não conseguia apoio de empresas, que consideravam que aquela era uma questão controversa. Eles vieram para o crowdfunding e alcançaram a meta em três dias. Acabou que as empresas reagiram ao retorno do público e entraram também como apoiadoras depois”.

A liberdade criativa, a independência produtiva e a possibilidade de transformar a relação com o público numa troca sem intermediários foram também valorizadas. “O crowdfunding é ideal para pessoas não famosas, mas com algum público considerável”, considerou Peter Sunde, que avaliou o incentivo fiscal brasileiro: “De onde eu venho (Suécia), a gente nunca teria incentivo fiscal neste modelo. Não acho que deveria acontecer”.

Sobre este mecanismo, Ana Ly avaliou: “Conhecemos caso de projeto inscrito no incentivo fiscal com valor de R$ 200 mil que migrou para o financiamento coletivo solicitando R$ 20 mil e conseguiu se financiar. Creio que o incentivo virou um vício muito grande de encarecimento”. A responsabilidade de artistas e produtores de fazerem acontecer, de apostarem em seus projetos, de precisarem garantir um bom relacionamento com suas redes e o retorno do público foi um ponto colocado em todo o debate.

O secretário de Cultura do Ceará, Guilherme Sampaio, questionou então se havia ali plataformas que atuam na relação de projetos com empresas por meio de incentivos fiscais, favorecendo o encontro dessas duas pontas. A questão gerou uma discussão interessante sobre o papel desses portais e as bases populares necessárias à noção de bem comum.

“A cena se estapeia pelas grandes empresas, pela boa vontade de seus gerentes de marketing. O financiamento coletivo está justamente distante dessa lógica”, opinou Bernardo Pauleira. “A gente entende o financiamento coletivo como uma ferramenta de diminuir gargalos, não é para solucionar o sistema público. Se a ideia é encontrar forma de como fazer beneficiar a Lei Rouanet, o movimento tem de ser de fora para dentro, não deve ser nosso”.

“O MinC pretende encontrar meios de dar potência às plataformas de financiamento coletivo, mas protegendo sua dinâmica leve e livre, sem engessá-las”, afirmou Carlos Paiva. Também presente, Leonardo Hernandes, diretor de Gestão de Mecanismos de Fomento do MinC, considerou: “Esta é uma possibilidade de mercado muito interessante. Outro mercado é possível, que não esteja colocado à mera maximização do lucro. Quando a gente quer discutir como o Estado pode entrar nessa seara, é para não perder oportunidade de discutir como regulamentar essa relação, de forma séria e logo, antes que alguém o faça à nossa revelia”.

Uma das formas apontadas por Felipe Caruso sobre como o governo pode colaborar está na pesquisa: “Qual impacto desses milhares de projetos financiados coletivamente? Precisamos compreender o impacto do setor antes de tudo”. Outra forte demanda é a capacitação dos agentes culturais, em especial daqueles que não têm familiaridade com o ambiente virtual ou que fazem parte de populações com menos acesso a sistemas de crédito, cartões e até mesmo a celular pós-pago.

“A capacitação é primordial. Mas percebam que falar disso cinco anos atrás era coisa confusa até para vanguardistas. Estamos falando de financiamento coletivo hoje com essa pompa, mas daqui a um tempo o líder comunitário terá sua própria plataforma para financiar e viabilizar as ações de sua comunidade”, avalia Bernardo Pauleira.