A crise não é dos refugiados

(foto de Cobertura Colaborativa / Carlos Sainz)

Antes de entrar em qualquer discussão sobre os refugiados nos tempos atuais, a mesa “Fronteiras do século XXI e a crise migratória” tratou de desfazer alguns mitos em parte cristalizados pelo olhar excessivamente europeu e norte-americano da política e da mídia ao discutir o assunto. Foi com estes esclarecimentos que Gabriel Godoy, oficial de Proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, iniciou o encontro nesta quarta (9), na Fundição Progresso. Ele lembrou que, ao contrário do que muitos pensam, os países desenvolvidos não são os maiores receptores dos refugiados, mas sim territórios como a Líbia, Turquia e Jordânia.

Aos números: são cerca de 60 milhões de pessoas em deslocamento, a maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial. Mais da metade dos refugiados são provenientes de apenas três países: Síria, Afeganistão e Somália. No entanto, a crise não está apenas do outro lado do Atlântico: a violência relacionada ao tráfico de drogas na Colômbia, iniciada há mais de 20 anos, produziu um fluxo de 6 milhões de deslocados internos, com mais de 300 mil pessoas expulsas de suas fronteiras.

Como sempre, os relatos dos refugiados conseguem dar uma noção mais real da maneira como a crise é vivenciada por seus protagonistas. Sem discursos vitimistas, Maha Mamo, refugiada apátrida no Brasil; Nuradin Abdi, refugiado somali na Inglaterra; e a dominicana Génesis Aquino, refugiada nos Estados Unidos, contaram suas experiências. Maha expôs todas as contradições de seu percurso desde a saída de sua terra natal à chegada ao Brasil “Sou nascida no Líbano, filha de pais sírios. Mas, ao contrário daqui, isso não é suficiente para ter nacionalidade local. No Líbano, não tinha direito de estudar nem de trabalhar. Tentei países do mundo inteiro, mas apenas o Brasil me acolheu. Tenho carteira de trabalho e CPF. Mas sou apátrida. Estudo e trabalho para comprar casa, carro, casar. Mas eu não posso. Porque para isso não existo”.

A República Dominicana enfrenta atualmente uma séria situação de apartheid, xenofobia e crise migratória que, pelo tamanho do país, não tem visibilidade compatível com sua gravidade. “Continuamos com o mesmo governo de elite desde a década de 1930. Mas agora o racismo e a xenofobia estão institucionalizados no país”, disse Génesis Aquino. Ela relatou que mudanças nas leis migratórias (2004) e na Constituição (2010) aprofundaram o preconceito, prejudicando também os haitianos que migram para o território vizinho: “Em 2013 tudo piorou. A Justiça desnacionalizou pessoas nascidas de quatro ou cinco gerações dominicanas anteriores. Isso gerou mais de 500 mil apátridas”. Em 2014, com a ajuda da ONU, a medida foi revogada, o que fez com que mais de 300 mil ex-cidadãos dominicanos tivessem que novamente solicitar sua nacionalidade. As concessões foram insuficientes e atualmente milhares de indocumentados são parados pela polícia nas ruas e impedidos de trabalhar e estudar.

“Eu sou um terrorista, um pirata, um gângster, um traficante”. Essas foram as identidades que o refúgio na Inglaterra tentou aferir ao somali Nuradin Abdi. Ele fugiu da guerra em seu país com apenas 8 anos de idade, no início dos anos 1990. Lá encontrou um ambiente hostil amenizado por redes de solidariedade: “Foi um choque. O tempo era diferente, o ritmo de vida mais rápido, a comida horrível. Por que Inglaterra? Porque meus familiares foram convidados para o país nos anos 50, para ajudar a reconstruí-lo após a Segunda Guerra Mundial. Sofri preconceito religioso e de raça. Meu refúgio foi o futebol. Ele me ajudou a lidar com o trauma, a escapar da criminalidade e a fazer novos amigos. Salvou minha vida”. Nuradin conta que a situação piorou substancialmente no país após o 11 de setembro de 2001. Ele chegou a ser preso, em um protesto contra a guerra do Iraque. Convidado internacional do Emergências, Nuradin se solidarizou com a população negra brasileira, que enfrenta dificuldades semelhantes em um contexto diferente do seu. “Entendo a situação de vocês. São sobreviventes que foram retirados compulsoriamente da África. Mas são fortes, porque vocês sobreviveram, assim como seus ancestrais. A história é escrita pelos vencedores, a partir de uma perspectiva eurocêntrica. Mas nós estamos aqui e estaremos sempre. Porque eu não sou gângster, não sou traficante, não sou pirata, nem terrorista”, concluiu.

Crise de refugiados? Não!

Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas do Rio de Janeiro, instituição ligada à Igreja Católica e principal responsável pelo acolhimento dos refugiados no Brasil, deu um panorama geral sobre a questão no país. E reclassificou taxativamente a crise: “A crise não é de refugiados. É humana, é do mundo, que está doente e coloca o dinheiro acima de tudo”. Segundo números de setembro de 2015, o Brasil abriga 21.130 refugiados, sendo que 12.600 ainda são solicitantes da condição. O Rio é o maior receptor e Angola o maior emissor; em seguida vêm República Democrática do Congo, Colômbia, Libéria e Síria. Entre as funções da instituição, estão o acolhimento, proteção legal (orientando os recém-chegados sobre seus direitos e deveres) e integração local (aulas de português, busca por políticas públicas, por trabalho…)

Aline relatou alguns fatos pitorescos, resultado do desconhecimento sobre a condição do refugiado: “Já recebemos ligações de empresários querendo contratar negros para carregar peso, com a ideia de que são fortes e adequados para este tipo de trabalho”. Uma perspectiva antropológica “Casa Grande & Senzala” que sobrevive no século XXI.

Maria Martha
Cobertura Colaborativa